BIOGRAFIA

Ainda pequena, por volta dos seis anos de idade, costumava me hospedar na casa de tios meus, no Rio de Janeiro, Brasil. Íamos à praia durante o dia e, ao voltarmos, meus tios me davam banho, serviam-me um lanche e iam tomar seus banhos enquanto eu ficava na sala. 
Sobre sofá havia uma reprodução de Guernica, de Picasso. Eu tinha medo. Simultaneamente, sentia-me atraída.  Às vezes queria desistir e ir para o quarto, mas no corredor do apartamento havia uma imagem ainda mais terrificante, o Jardim das Delícias, de Hieronymus Bosch. Então eu continuava, sozinha, na sala. Se o medo ficasse insuportável, saía numa carreira acelerada para o quarto, sem olhar para trás, e lá ficava a bufar, exausta!
A arte sempre causou-me atração e repulsa. 
Continuei sem apreciar Picasso, sem entender..., mas...
Em 1986, formei-me em Artes Plásticas e em seguida, fui morar alguns anos em Portugal e, depois, na Espanha. Ali, vi, pela primeira vez, Guernica, ao vivo. Então, chorei, tão impactante me foi experimentar aquela obra!
Retornei ao Brasil na década de 1990. Montei um atelier-escola, comecei a dar aulas de arte no ensino básico, cercando-me do coletivo criador composto por jovens. 
O profundo impacto subjetivo que a arte pode causar em nossas vidas, às vezes de modo sutil e silencioso, é aquilo que busco explorar, conhecer, nomear junto a meus alunos. Passou-me a interessar muito meu lugar de professora de artes. Significar a vida por meio estético, pela experiência estética, gerar e gerir ambientes em que crianças e jovens possam também significar suas experiências de vida, escapulindo à racionalidade docilizadora e discursiva que lhes é imposta no ambiente disciplinar da escolarização. Escapar, eu mesma, desse lugar, nutrindo-me do fazer artístico para mergulhar na experiência do outro. 
É nesse lugar da docência, lado a lado com meu fazer artístico, que me habitou todos esses anos. Crio em um espaço compartilhado com crianças e jovens de um país pobre, onde me reconstruo permanentemente como artista e onde viso garantir arte para a formação resistente e forte de jovens latinos, pretos, índios, pobres, colonizados, para que se constituam autores protagonistas de suas vidas.
Nesse momento da vida de minha nação, observo o genocídio instaurado por um Chefe de Estado negacionista em um espaço político-geográfico em que muitos de meus co-cidadãos não se dão conta das forças em jogo. Um jogo de palavras, wittgensteiniano, cuja semântica trago em um grito "COVID-19", como gritava a Guernica pós-guerra.
Grita esse Brasil folclorizado, no qual pessoas desaparecem, morrem, silenciadas sob uma regência que ignora seus músicos, sua orquestra. Lugar aonde alguns se salvam, protegidos no chroma key  da vida, e outros, desaparecem... Um Brasil em que nada se assemelha à sua referência lusitana. 
Uso a fotografia, seu instantâneo e seus recursos de edição - apagamentos e isolamentos -, que, mais do que em outros momentos, denunciam cenários e mapas cartográficos que têm de ser denunciados...

Uso a costura, a comida, a aquarela, a relação íntima e diária com meu gato, enfim, os meios que me são possíveis para reinventar vida em tempos de mortandade.

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